domingo, 22 de janeiro de 2012

A mãe, a filha, o assaltante e Jesus.



Mãe: - Você é uma comunista!
Filha: - Que comunista mãe? Você lá sabe o que é comunismo?
Mãe: - É um bando de vagabundo que não quer nada com trabalho! Gente bagunceira, que só sabe fazer greve!
Filha: - Mãe... Não sou comunista e mesmo que fosse, comunismo, não é nada disso! Nossa, que coisa mais mil novecentos e setenta!  Você fala umas coisas tão retrogradas...
Mãe: - Você fica ai, falando numas coisas, em liberdade, em futuro... Depois que entrou na faculdade, só piorou! Deve ter um monte de comunista lá também! Devem fazer reuniões, planejar badernas... E se o governo descobrir minha filha? Você é mãe! Vai deixar sua filha órfã de mãe?
Filha: - Mãe, a ditadura acabou há décadas... Que papo é esse? (risadas) Que reuniões? Que badernas? Do que você ta falando?
Mãe: - Não sei.  Você anda diferente... Lendo demais, pensando demais, namorando de menos! Quando vai arrumar um namorado? Quanto tempo tem que você se separou?  Isso é falta de namorado! Já pensou nisso? Tá ficando velha e não arruma um namorado! Minha filha você virou sapatão? MEU DEUS! Que vergonha! Que vergonha!
Filha: - Chega! Vamos? Vai ficar tarde e não vamos conseguir comprar o presente da Bárbara...

A filha pega a chave da porta de casa e fecha. Pensa nas coisas que a mãe falou, ri sozinha e para apimentar a discussão, não resiste e fala:
Filha: - Tá vendo? Se vivêssemos em uma sociedade igualitária, não precisaríamos trancar a porta...
Mãe: - Como assim? Tá louca! Entraria alguém ai e roubaria nossas coisas, nosso computador, televisão e tudo de valor que temos...
Filha: - Na sociedade igualitária não! Todos teriam condições de ter e não precisariam roubar! Você acha que alguém gosta de roubar? Há exceções, eu sei, mas a grande maioria faz por que foi levada pela vida, não teve uma boa educação... (A mãe interrompe)
Mãe: - Pronto!Entramos na educação... Você adora essa palavra! Tudo para você se resolve com educação... Ora essa! Educação vem de casa!
Filha: - Sim, também... Mas se, um pai, uma mãe, não teve boa educação, vai passar o que para um filho? Se a escola que uma criança estuda é uma merda, em casa é uma merda, o que vai ser dessa criança?
Mãe: - Hã... Então, se alguém vem te assaltar, armado, te dá um tiro, tira à vida de alguém da sua família, a culpa é do governo?
Filha: - Não diretamente, mas é...
Mãe: - Não vou discutir com você, você vive no mundo da lua, é uma u... U... U...
Filha: - Utópica?  (risos) Não é utopia saber o que cura um mal. Há longo prazo o que cura violência é educação. Mas nenhum governo pensa no longo prazo, só pensa no imediatismo de resultados.

Viram a esquina em direção ao ponto de ônibus, mas por ironia do destino um homem, jovem, vem em direção as duas e anuncia o assalto. Lógico que a primeira coisa que a mãe fez foi lançar aquele olhar para a filha, como quem diz: “Agora quero ver o seu discurso na prática.”
Assaltante: - Perdeu tias! Passa o dinheiro, celular... TUDO!
Mãe: - Olha meu filho, meu celular é esse, do camelô, que custa sessenta reais, dinheiro tem não... Só cartão! Você aceita cartão? Nossa, como você é novinho... Né, não filha?
Assaltante: - Tá de sacanagem tia? Tá pensando que eu to aqui de putaria? Mê dá essas porras ai “mermo”!
Mãe: - Pois é... E essa ai, (aponta para a filha) ainda defendendo esse tipo. Tá vendo? Agora defende! Diz que a culpa é do governo por esse delinqüente juvenil está aqui, apontando uma arma na nossa direção! Quero ver agora!
Assaltante: - Pow tia, esculacha não!!! Tô aqui entendeu? No maior respeito, fazendo meu ganho, pra levar alguma coisa pra garota, que ta lá de barriga, saca?
Mãe: - Meu Deus! Já ta de “barriga”? Filho, você tão novinho? Já fez um filho... Meu Deus! O mundo ta acabando mesmo...
Filha: - É mãe... Ele é novinho... Pergunta para ele cadê os pais dele? Em que condições ele cresceu?
Assaltante: - É tia, a vida foi difícil, ta ligada? Meu pai ta preso, minha mãe doente, não consegue trabalhar, nem se aposentar, num sabe que to nessa vida não... Ela quer que eu trabalhe direitinho, mas eu sou burro! Não consigo ficar na escola, num terminei nem a oitava série! Tô pensando em entrar pro “movimento”, mas ai minha velha vai ficar sabendo... E ainda tem a barriga que arrumei! (Desespero na voz)
Filha: - Burro nada! Você não é burro! Não fala assim de você! Se soubesse o porquê das coisas serem assim, como são, não é culpa sua, nem da sua mãe, nem do seu pai, que também é uma vitima de toda uma história de separação de classes... (a mãe interrompe)
Mãe: - Filho! Procura JESUS! Só Jesus na sua vida!

O assaltante, no meio das duas, virava o rosto, ora, ouvindo a mãe, ora, ouvindo a filha.

Filha: - Mãe, ele tem que entender o que o levou a essa condição...
Mãe: - Entender pra quê? O que isso vai fazer a diferença agora na vida dele? Você tem que procurar Jesus!
Filha: - Procurando Jesus ou não, o que ele realmente tem que fazer é voltar a estudar... Volta a estudar, à noite, termina o segundo grau, abre sua mente para o mundo, entenda o motivo das coisas acontecerem com você, vai achar uma profissão, eduque seu filho que vai nascer. Não te prometo riqueza, mas te garanto dignidade, vai se sentir melhor...
Mãe: - Nossa! Até aqui você quer iludir o menino! Com esse mesmo papo de educação e...
O assaltante ficou no meio das duas, devolveu os celulares e continuou ouvindo sobre educação e Jesus Cristo por mais 20 minutos. Deu até o número do celular dele para as duas que queriam saber do bebê que ia nascer.

Certo tempo depois, “a filha” liga para o assaltante, para saber como andava a vida do rapaz, ele atende:
- Alô.
- Alô, Wenderson?
-Sou eu mesmo. Quem é?
- Fabiana, lembra? Que você quase assaltou?
-Qualé tia! Você ligou mesmo!
-Liguei! E quero saber como anda sua vida?
- Tia, é o seguinte voltei a estudar, á noite, como a senhora me falou, ta difícil, mas eu descobri que não sou tão burro assim. Dá para fazer um esforço... To ajudando um amigo do meu tio, na oficina dele, não to ganhando muito não, mas foi aquilo que a tia disse: Me sinto melhor! Até minha mãe anda orgulhosa de mim...
-Que bom Wenderson! Fico realmente muito feliz!
-Meu moleque nasceu ontem!
-Nasceu? Menino?
- Menino! To indo registrar o moleque agora! Sabe qual vai ser o nome dele tia?
-Qual?
- Jesus da Educação Silva. E que também escutei a senhora sua mãe, procurei Jesus...
- Ok, Wenderson, o que vale é que você mudou!

4 comentários:

Daiane Guedes disse...

Fantástico!

Angelus disse...

Taí uma situação problemática do país que poderia ser solucionada justamente com educação.
Ilustrou esse contexto social muito bem.
Não adianta nada apontar os problemas e não revelar qual a solução. E seu texto dá uma solução: investir na educação e pensar a longo prazo. Não me parece tão difícil, só que governante nenhum faz nada disso.
Ah, também acho que Jesus ajuda, mas não dá pra deixar tudo por conta dele, não é?
Texto muito bom.
Uma história dessas certamente é verídica, mas aconteceu com você mesmo?

Tenha uma boa semana. Até a próxima.

Jaime Guimarães disse...

Oi, Fabi!

Procurar Jesus, procurar os comunistas, isso não dá certo na minha opinião - mas respeitando quem pensa o contrário, claro -, já buscar solução por via da educação dá certo, embora ela não seja a "tábua de salvação" de todas as mazelas do país. O imediatismo tem nome: eleição. Não há projeto a longo prazo nem para educação, habitação, mobilidade urbana e tantos outros setores deste país. Conhecemos avanços sim, mas é preciso avançar mais.

bj!

Jacques disse...

Ótimo, Fabiana.
O que teu talentosamente colocou aí é um retrato fiel do que acontece todo maldito santo dia neste país: pessoas se dando mal, tendo de recorrer ao crime para poderem apenas sobreviver e a sociedade colocando a culpa em bodes expiatórios imaginários.
Como o grande Jaime colocou, a cura disso vem do como educação + eleição.
Abraço, Fabiana e desculpe ter sumido.
Até a próxima.