segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A botija (Parte 1)

Era homem de aparência bem cuidada, face séria e muito preocupada, dizia-lhe muito seriamente:
- Preste atenção! Escolhi você para libertar minha alma que a muito sofre...

Enquanto falava, caminhava por entre a mata, lugar aquele conhecido da mulher que escutava minuciosamente o homem a falar:

-Fui muito mesquinho em vida, por não querer gastar meu dinheiro, meu filho já doente faleceu e minha mulher em seguida também faleceu de tanto desgosto, não gastei meu dinheiro, mas perdi meu maior tesouro que era minha família. Muito doente também fiquei e nunca mais aqui voltei...

Um vento muito forte começou, era como se fosse um uivo de animal, o medo começou a subir pela espinha. Era quase impossível continuar e andar, apontando por entre duas grandes pedras o homem disse num tom de voz alto, pois o vento atrapalhava a sonoridade da frase:

-A meia-noite virá sozinha, e aqui vais desenterrar minha botija. Deveras ser corajosa e ter muita fé, pois a minha alma Satanás quer!

A mulher amedrontada perguntou:

- Posso vir com uma pessoa de confiança? Tenho muito medo...

- Sim, mas deverão manter o silêncio sobre isso...

                                                               ***

Abriu os olhos, viu o teto da casa de barro com folha de coqueiro trançada, o dia já amanhecia e a sensação não era boa. O coração ainda palpitava no peito, era um pesadelo, mas ficou pensativa naquela tal de botija. Não contou a ninguém, os filhos saíram para trabalhar e ela também se preparava para sair. Uma voz lhe interrompeu os pensamentos:

- Dia cumadre! Vai pro muinho hoje?

Sem muito prestar atenção na indagação feita por seu compadre e grande amigo, disse:

- Cumpadi, se achegue a mais, vô ti contar uma história...

Todo o episódio do sonho contou para o amigo, a quem pretendia levar para a caça a botija. Mas perplexo o homem disse:

- É butija!

Conversaram horas sobre tal assunto, esqueceram até de ir moer a farinha de mandioca no moinho. Sabiam que botija era um pote de ouro, jóias, enterrado por fazendeiro rico que morria sem gastar tal fortuna. Lembraram de casos já contados por outras pessoas de botija. O medo tomou conta do amigo e escolhido para a tal aventura, que tratava de amedrontar a amiga:

- Mas e ai cumadri? Vai desencavar a butija? Dizem que o próprio coisa ruim aparece e todo tipo de assumbragem tumbém!

Os dois ficaram quietos, imaginando se seria possível para dois medrosos enfrentar tal coisa sobrenatural no meio da escuridão da mata.

- Então num vô! Sô muito medrosa, não quero ver assumbragem, não!

O medo era grande, mas a vontade de achar o tesouro do morto era maior, também pensavam o quanto poderiam mudar de vida, mas o preço a pagar era enfrentar a escuridão e os próprios medos...

                     ***
Uma parede de fogo invadiu a pequena casa, tentava gritar mais o som da sua voz não saia, tentou se mexer, mas o corpo não respondia. Do meio do fogaréu o mesmo homem do sonho surgiu, sua face era de suplica o ambiente de terror, devia ser o próprio inferno, o homem lhe implorou

-Por favor, liberte-me! Tenha piedade! Não me deixe aqui!

Abriu o olho, do mesmo modo do dia anterior, o coração parecia que saltar pela boca, era uma sensação terrível! O morto não ia parar até que ela cumprisse o que lhe pedira. Ficou quieta o dia inteiro, trabalhou em silêncio. O compadre também parecia muito pensativo no assunto se aproximou e disse cheio de coragem:

-Cumadi, você ainda ta pensando naquela história? E que eu achu que podemos dar apoio um no outro, num sabe? Nois vamos juntu, e qualquer coisa saimu correndo!

-Não só to pensando, como ia lhi pedir a mesma coisa... tô me apiedando dessa alma, tive outro sonho hoje.

Olharam-se, já estava decidido, desenterrariam a botija naquela noite.

Continua...

8 comentários:

Simone P. Cardoso disse...

Oi Fabiiii.
Menina, parece os "causos" que meu finado avô contava quando eu era criança. O máximo! Parabéns.
Ai eu quero a parte 2 logo.

Beijocas
Si

Fabiana Folly disse...

Simone, essa conto foi baseado em um "causo" que minha avó pernambucana me contou quando esteve aqui no Rio.
Ela me contando com um sotaque arrastado me impressionou, por isso quis escrever como ela falava.

Obrigado pelo coments lindinha!!!
Beijos!!!

Marcos Satoru Kawanami disse...

desencavou e assumbragem achei novidade.

então Sócrates foi refutado finalmente. só sei que nada sei, ou será que não sei que sei?

ih! a combinação de letras de verificação foi esta: fello


=D
Marcos

Fabiana Folly disse...

Oi Marcos!!!

Desencavou e assumbragem é como a personagem fala...
Lógico que não é a escrita culta, sim coloquial...


Obrigado pela visita e volte sempre!

Affonso Schmitt Paiz disse...

Oi Fabiana!

Seu blog anda mexendo com o imaginário...

Bom, o motivo da minha visita é que vim avisar que tem um selo para vc, é só ir buscar no meu blog.

Bjs

Jaime Guimarães disse...

Fabi,

meus avós e meus pais contam ( e contavam) histórias sobre panelas e potes com ouro enterradas em determinados lugares e revelados através de sonhos, assombrações e "luzes estranhas" que pairavam sobre o local onde o ouro supostamente estaria enterrado.

Havia todo um ritual para desenterrá-lo. Um movimento errado e o ouro "encantava", ou seja, desaparecia e ia para outro lugar.

Meu avô tentou encontrar uma. Foi ao local relatado em um sonho mas acabou se confundindo. E o sujeito só tem uma chance, a segunda não há.

Porém, histórias mais realistas são as panelas com moedas e joias enterradas na mata ou na caatinga por causa de Lampião. Muita gente enterrava seus bens mais preciosos para que o cangaceiro não tomasse. Uma tia fez isso só porque ouviu o boato de que Lampião estaria chegando - e nem Corisco apareceu. Felizmente, ela recuperou seus bens; mas muitos esqueceram do local ou morreram e até hoje essas panelas continuam enterradas...rs

Adoro essas histórias, bem melhores e mais divertidas do que as bobagens que lemos por aí sobre "vampiros" e afins.

Bjk! =*

Brasil Desnudo disse...

Oi, minha querida Desbocada Fabi!!

Quem conta um conto, as vezes aumenta um conto...
Mas em sua narrativa, a estória vislumbra como nossa cultura é imensa e diversificada, pois tanto do seu Vô, como da minha vovó, onde ela também contava estórias de quando ela ainda era filha de índia, Tupi Guanari...
Vovó contava os causos dela exatamente da forma que você fez em sua narrativa, de forma maravilhosa Fabi..

Aguardo a segunda parte, ok?

Um monte de beijos em seu coração, e muita paz pra Ti...

Marcio RJ

DorianGrayDead disse...

oi ^^