quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

A botija - 3ª parte (Final)



Uma garota de calça jeans apertada, cabelo longo, negro, ao vento e um rapaz “russinho”, magrela, de andar engraçado. Era essa a visão daquela velha senhora nordestina sobre as duas figuras que se aproximavam sorridentes ao seu encontro.
-Vó! Que saudade!!!
-Alice! Minha neta! Nunca imaginei ti receber aqui, na minha cidade...
A garota abraçou a senhora e apresentou o amigo, companheiro de viajem Jonas. Viajavam sem destino, mas certos de passarem pela pequena cidade onde a avó de Alice, Dona Biuzinha, morava. Alice já havia contado várias vezes às histórias da avó para Jonas, que morria de curiosidade de conhecer a senhora contadora de histórias...
-É seu namorado Alice?
-O Jonas, vó?
Os dois jovens riram, mal sabia dona Biuzinha das preferências de Jonas.
-Somos não vó! Somos grandes amigos! Desde criança.
Respondeu Jonas, já com uma voz mole. Dona Biuzinha, olhou e ficou olhando, quase entendendo a mensagem, mas não disse nada... Foram o caminho, rindo e conversando em direção a casa da senhora

O dia foi muito agradável, muitas risadas, comidas típicas e ao final ficaram na porta da casa, conversando e tomando café com bolo. Então Jonas desmunhecando, disse:
-Eu vou engordar horrores aqui! Aff...
Todos riram! E continuou falando, tentando segurar a “feminilidade”:
-Vó, me contaram uma história...
Dona Biuzinha, respondeu fazendo cara de quem sabia o que iria ser perguntado:
-“Fali meu fio”!
-É sobre a botija...
A velha senhora deu uma gargalhada e o “causo” rendeu até tantas da noite...

Quando todos se preparavam para dormir, Jonas disse afoito, mas decidido:
-Vó, leva a gente onde está enterrada a botija?
Alice riu, Jonas lia seus pensamentos, só podia!
A velha senhora olhou para os dois, os fitou por vários segundos e disse:
-Vou dizer onde fica. Mas vocês dois, vão voltar lá sozinhos a meia-noite! I Fazer o qui tem qui ser feito e se achar a botija, vão ter que sumir daqui, ouviram?
Na verdade os dois amigos não acreditavam na história, eram dois desacreditados com um grande espírito de aventura, eles queriam mesmo é “zuar”!

*****
O sol estava muito forte, já varava meio-dia quando chegaram ao local indicado pela senhora que se emocionou ao ver o lugar. Lembrou que o compadre morreu depois de anos, falando na aventura que tiveram e seu grande desgosto foi não ter desenterrado a botija.
-Oie, ocês da cidade grande, num sabe o que é escuridão, então tratem de trazer lanterna, lampião e tudo que alumine o caminho d’ocês. Ao morto só resta a esperança de salvarem sua alma...

E Dona Biuzinha tinha razão! O breu era total, quase doze horas depois! Difícil andar, mas a risada dos dois jovens aventureiros ecoava na escuridão da mata. Talvez rissem para disfarçar o medo, mas não demonstravam, nem falavam que sentiam. Alice disse:
- Que besteira ter que vir essa hora! Só não cavei naquela hora, para não chatear minha avó...
-Deixa de ser ranzinza Alice! Tá muito legal essa nossa aventura pelo meio da mata, na escuridão! Imagina um bofe... (um barulho interrompe)
Viraram as lanternas, era uma coruja, os dois voltaram a rir, parando logo em seguida quando se depararam com o local indicado por Dona Biuzinha, começando logo a cavar. Enquanto Jonas cava desesperadamente, Alice olha em volta, firmando a vista, vendo um homem a mais ou menos a 100 metros, parado na escuridão, olhando fixamente para eles... O coração de Alice dispara, o local era mal assombrado mesmo! As pernas tremem e Alice diz a Jonas:
-Jonas! Tem um homem olhando a gente!
Jonas responde afoito, nervoso e mais afeminado que nunca:
-Olha Alice, que fique só olhando! Por que eu não vou parar de cavar isso aqui nem se o Rick Martim aparecer aqui, na minha frente...
Alice tremendo, desvia o olhar do homem e começa a ajudar Jonas.
-Olha Jonas! Tem alguma coisa aqui! É tudo verdade mesmo!
Uma voz sai da escuridão:
-Eu caio! Eu vou cair...
Os dois levantam lentamente o rosto, a expressão era de horror. Na escuridão um vulto, que falava :
-Eu caio! Ta caindo...
E caiu um braço. Os dois gritaram!
Alice ia se levantando para sair correndo e Jonas a segurou.
-Amiga, chegamos até aqui, não desista agora!
Jonas tremia e Alice mal conseguia falar. Não olharam mais para a escuridão e voltaram ao buraco cavado. A voz continuou, dessa vez, com ajuda de outras vozes e uma ventania que começou do nada:
-Tá caindo, vai cair...( e o barulho de membros caindo era escutado pelos dois amigos)
Jonas, em um ato de desespero,
 levantou e gritou:
-Seu coisa ruim, pode cair até seu pinto aqui na minha cabeça, mas agora que comecei não vou parar! Cava Alice! Cava que não vou me cagar e mijar à toa!
-Achei Jonas! Um baú!
Os dois se ajoelharam e puxaram a caixa, abriram e todas as vozes, medos e pavores cessaram.
Estava desfeita a maldição...


terça-feira, 14 de dezembro de 2010

A botija (parte 2)


Encheram-se de coragem! Crucifixo, imagem de Nossa Senhora da Glória e uma pá era certo de levarem. A ansiedade era tanta que espantou o sono dos dois acostumados a dormir muito cedo.


Dez e tantas da noite já caminhavam rumo ao desconhecido, a escuridão era tanta que devorava a luz do lampião, a luz da lua ajuda a iluminar, os barulhos naturais da mata tornavam a caminhada aterrorizante, mas mantinham-se firmes apoiando-se um no outro. Derrepente:

- É aqui!

Disse a mulher com uma grande ânsia, reconhecendo o local dos seus sonhos, uma clareira, duas pedras enormes marcavam seu reconhecimento, começaram a cavar, rezavam um terço. Uma neblina muito forte tomou o lugar, não conseguiam ver nada em volta. O buraco no chão já era bem profundo quando da neblina viam vultos correndo em volta deles. A mulher desmaiou de tanto medo e só foi acordar já certa distância do local ao lado do amigo.

-Cumadre você está mio?

Ela estava muito atordoada e ao longe viu o morto dos seus sonhos ajoelhado chorando no buraco feito por eles, um desconhecido estava ao lado do morto olhando-a, enormes asas negras se abriram, ela entendeu o que havia acontecido, disse ao compadre:

- Satanás venceu! Nos perdemos! Vamos embora...

Compadre nunca contou o que aconteceu depois do desmaio e nunca mais voltaram naquele lugar...

Continua...

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A botija (Parte 1)

Era homem de aparência bem cuidada, face séria e muito preocupada, dizia-lhe muito seriamente:
- Preste atenção! Escolhi você para libertar minha alma que a muito sofre...

Enquanto falava, caminhava por entre a mata, lugar aquele conhecido da mulher que escutava minuciosamente o homem a falar:

-Fui muito mesquinho em vida, por não querer gastar meu dinheiro, meu filho já doente faleceu e minha mulher em seguida também faleceu de tanto desgosto, não gastei meu dinheiro, mas perdi meu maior tesouro que era minha família. Muito doente também fiquei e nunca mais aqui voltei...

Um vento muito forte começou, era como se fosse um uivo de animal, o medo começou a subir pela espinha. Era quase impossível continuar e andar, apontando por entre duas grandes pedras o homem disse num tom de voz alto, pois o vento atrapalhava a sonoridade da frase:

-A meia-noite virá sozinha, e aqui vais desenterrar minha botija. Deveras ser corajosa e ter muita fé, pois a minha alma Satanás quer!

A mulher amedrontada perguntou:

- Posso vir com uma pessoa de confiança? Tenho muito medo...

- Sim, mas deverão manter o silêncio sobre isso...

                                                               ***

Abriu os olhos, viu o teto da casa de barro com folha de coqueiro trançada, o dia já amanhecia e a sensação não era boa. O coração ainda palpitava no peito, era um pesadelo, mas ficou pensativa naquela tal de botija. Não contou a ninguém, os filhos saíram para trabalhar e ela também se preparava para sair. Uma voz lhe interrompeu os pensamentos:

- Dia cumadre! Vai pro muinho hoje?

Sem muito prestar atenção na indagação feita por seu compadre e grande amigo, disse:

- Cumpadi, se achegue a mais, vô ti contar uma história...

Todo o episódio do sonho contou para o amigo, a quem pretendia levar para a caça a botija. Mas perplexo o homem disse:

- É butija!

Conversaram horas sobre tal assunto, esqueceram até de ir moer a farinha de mandioca no moinho. Sabiam que botija era um pote de ouro, jóias, enterrado por fazendeiro rico que morria sem gastar tal fortuna. Lembraram de casos já contados por outras pessoas de botija. O medo tomou conta do amigo e escolhido para a tal aventura, que tratava de amedrontar a amiga:

- Mas e ai cumadri? Vai desencavar a butija? Dizem que o próprio coisa ruim aparece e todo tipo de assumbragem tumbém!

Os dois ficaram quietos, imaginando se seria possível para dois medrosos enfrentar tal coisa sobrenatural no meio da escuridão da mata.

- Então num vô! Sô muito medrosa, não quero ver assumbragem, não!

O medo era grande, mas a vontade de achar o tesouro do morto era maior, também pensavam o quanto poderiam mudar de vida, mas o preço a pagar era enfrentar a escuridão e os próprios medos...

                     ***
Uma parede de fogo invadiu a pequena casa, tentava gritar mais o som da sua voz não saia, tentou se mexer, mas o corpo não respondia. Do meio do fogaréu o mesmo homem do sonho surgiu, sua face era de suplica o ambiente de terror, devia ser o próprio inferno, o homem lhe implorou

-Por favor, liberte-me! Tenha piedade! Não me deixe aqui!

Abriu o olho, do mesmo modo do dia anterior, o coração parecia que saltar pela boca, era uma sensação terrível! O morto não ia parar até que ela cumprisse o que lhe pedira. Ficou quieta o dia inteiro, trabalhou em silêncio. O compadre também parecia muito pensativo no assunto se aproximou e disse cheio de coragem:

-Cumadi, você ainda ta pensando naquela história? E que eu achu que podemos dar apoio um no outro, num sabe? Nois vamos juntu, e qualquer coisa saimu correndo!

-Não só to pensando, como ia lhi pedir a mesma coisa... tô me apiedando dessa alma, tive outro sonho hoje.

Olharam-se, já estava decidido, desenterrariam a botija naquela noite.

Continua...