terça-feira, 15 de outubro de 2013

O ônibus, a passeata e o vento levantou a saia.


 Depois de uma aula sobre Educação Indígena e muitas reflexões sobre a causa, embarquei em um ônibus, como todo dia faço, sem nenhuma pretensão de nada. Quase todos os lugares estavam ocupados, mas dava para sentar e assim o fiz. A minha frente estavam dois velhinhos, sendo um grisalho e outro com cabelos branquinhos, igual neve. No banco ao lado, dois homens com roupa tipo uniforme de obra sujo de cimento, conversavam sobre coisas de trabalho e no ponto seguinte, um homem com farda de bombeiro, sentou dois bancos atrás dos homens da obra. Assim a viajem seguiu...

   Seguiu, até parar na Praça da Bandeira. Era passeata dos professores, que seguia em direção a Prefeitura do Rio. Um dos velhinhos, o de cabelo mais branco, falava sobre o direito das pessoas se manifestarem, sobre o ranking da educação e a vergonhosa posição que o país desfrutava: penúltima posição. Ele falava com muito senso crítico e me surpreendeu por uma visão tão atual, defendendo inclusive os professores e as manifestações. Enquanto o ônibus dava uma volta para “cortar” o engarrafamento, os dois caras da obra, falavam de um cara do trabalho deles que não aprendia a mexer numa tal máquina, não aceitava ser ajudado e sobre como são "vadias e putas" as mulheres que trabalham junto com homens.

   -Eu sei mexer, trabalho muitos anos, posso dizer que sei muito, mas ele não quer que eu ajude.
   -É o cara é burro mesmo! “Cheidi”coisinha... acho que ele não sabe ler direito.
   -E a Valdinha, hein? Tá namorando um corno lá, tu tá "sabeno"?
   -Namorando? Aahahahhahahaha (riso alto e maquiavélico)!!! Aquilo é uma piranha...

O ônibus para, anda lentamente. O cara da última fala continua, apontando a passeata:
   -Pra quê isso? Passeata nada rapá! Tem que ficar em casa, na piscina, tomando cerveja. Bando de sem noção! Não quer trabalhar, fica em casa!
   -Mas é bom. Cheidi mulé, oia pra isso... Muita mulé!

  O velhinho olhou para o cara, com sangue nos olhos. Eu, contei até dez, minha tática infalível e o cara ainda olhou para mim e perguntou:
   -Né não colega?
 Em 1 segundo e alguns milésimos seguintes, dez mil respostas passaram pela minha cabeça. Imaginei respostas filosóficas, matemáticas, geométricas, isométricas, milimétricas... Imaginei um rico VAI TOMAR NO CU, imaginei perguntas mirabolantes, imaginei dizer sou PEDAGOGA, mas acho que ele não ia ligar nome a profissão/situação e por fim, apenas um seco:
   -Não, não é não...
 Ele me olhou com cara de nojo e continuou a conversar com o “amigo” a seu lado.

   Enquanto o bombeiro falava muito alto coisas ao telefone celular, uma mulher, lá na frente do ônibus, esbravejava coisas como atrapalhar a vida dela, onde o ônibus ia parar e blá, blá, blá... Um outro coroa, lá da frente também, resolveu zoar:
   - Aê! Vai pra passeata! Vai protestar...
   - O senhor que vá para a puta que pariu!
 Risadas. Faltou-me a coragem dela para fazer a mesma coisa com o cara sujo de cimento. O coroa continuava a zoar a dona revoltada, mas era um zum zum zum, mais buzinas, os caras da obra falando, os velhinhos discutindo e o bombeiro brigava feio com alguém no telefone. Minha audição se voltou a ele, que exigia um documento assinado por sei lá quem. Ele se levantou, se preparando para saltar e disse alto ao telefone, deixando o ônibus em silêncio (todos, inclusive eu, exercendo o espírito da fofoca, comum a raça humana):
   - Diz pra esse cara que vou processar ele! Meu telefone tá gravando a conversa e ele me chamou de CRIOLO! Diz para ele que sou NEGRO!

   Ora, fiquei pensando se a palavra crioulo era tão ofensiva assim. Mas logo me censurei, devia ser, pois o bombeiro estava muito bravo. Fiquei filosofando sobre ofensas, sobre ser negro, branco, negão, amarelo, crioulo, branquelo, índio... Não, índio não. Dificilmente alguém vira e diz “sou índio”. Eu nunca ouvi! No máximo “sou descendente de índio. Minha tataravó era índia e meu tataravó era Holandês e caçou ela na mata” (kkkkkk!!!!). Afinal, retomando ao início do texto, vinha de uma aula de educação indígena, estava com essas questões ferventes na cabeça e poderia ficar aqui, escrevendo páginas sobre o que pensei, sobre a tanguinha do índio, mas deixa pra lá, ainda estava no ônibus novela, onde tudo acontecia.

   Desceram no mesmo ponto, o bombeiro, que ainda brigava ao telefone, a coroa reclamona e os caras da obra, incrível! Mas é verdade, só ficou os velhinhos anarquistas, que torciam o pescoço, dentro do ônibus, juntamente com os caras da obra sujos de cimento e o bombeiro, já do lado de fora do ônibus, para ver uma mulher, que tinha a saia levantada pelo vento, andando na calçada da Presidente Vargas. Eu ri. Homens são homens, independente de idade, cor do cabelo, cor da pele, opinião política ou profissão. Desci do ônibus com a certeza que aquilo tudo, daria uma crônica. E deu...


sexta-feira, 22 de março de 2013

Jesus te chama




Lá vou eu de novo falar de Jesus! Antes, gostaria de deixar claro que, apesar de não ser Cristã, acho que Jesus é o cara, foi um profeta, uma pessoa além do seu tempo, que tenho admiração e profundo respeito por seus seguidores, mas tenho a convicção que nunca foi pretensão de Jesus fundar qualquer tipo de Igreja... Em fim, não é sobre isso que quero contar, quero contar como Jesus me “chamou” e eu levei um puta susto!

Lá estava eu, em plena Central do Brasil. Central do Brasil pra quem não conhece, é o ponto final das estações de trem do Rio de Janeiro, lugarzinho com grande circulação de pessoas, indo e vindo para os vários pontos do Rio de Janeiro. Não ia pegar trem e nem havia soltado de nenhum, apenas era passagem para o caminho que seguiria, mas sem nenhum puto (= dinheiro) no bolso, precisava sacar dinheiro, e lá na Central têm de tudo, inclusive caixas eletrônicos e ladrões, muitos... Caixas e ladrões para ser bem específica. A fila estava grande, resolvi sacar um dinheirinho ali mesmo, já que não haveria outro lugar. Já na fila, com um cagaço monstruoso, olhando discretamente para todos os lados, minha vez chega, enfio o cartão, digito minha senha, e aguardo meus míseros R$20,00 sair do buraquinho da alegria, senti  uma mão me cutucando, seguindo da frase:  - Jesus te chama!

Olha cara leitores, foi um segundo equivalente a dez minutos de pensamentos. Pensei: FUDEU! SE “O CARA” TÁ ME CHAMANDO É POR QUE DEU MERDA O TROÇO AQUI E EU VOU MORRER! PUTAQUEPARIU! VOU MORRER POR CAUSA DE VINTE REAIS! PORRA, JESUS! VAI ME CHAMAR POR CAUSA DE VINTE REAIS?

Depois de alguns pensamentos “filosóficos” sobre a natureza da frase “Jesus te chama”, percebo que um cara, na verdade um bom de um filho da puta, que estava na fila ao lado da minha, resolveu “pregar” a palavra de Jesus, segundo sua religião, bem na hora que eu estava a sacar meus míseros R$20,00 reais. Veja bem, nada contra a religião de ninguém, cada um com seu cada um e até a liberdade de pregar para convencer a outros da “SUA” verdade acho válido, desde que se respeite o limite que esse outro impõe, respeito é bom e todo mundo gosta, independente de religião, raça, opção sexual e etc. Mas daí, a criatura, resolver me entregar um papel da igreja dele, alegando que Jesus me chamava bem naquele exato momento, putamerda! Foi uma boa pisada de bola! Porque eu levei foi um susto do caralho! E na hora fiquei com muita raiva! Acabei sendo estúpida com o carinha, coisa que foge totalmente a minha natureza pacífica.
Fiquei pensando no que levou aquele digníssimo cidadão a querer me dar um papel da igreja, bem naquele exato momento. Fiquei relembrando a cena e pelo lugar que estava na fila, devia estar me observando há algum tempo. Ele viu uma mulher toda de preto, tatuada, com adornos de caveira e etc. deve ter pensado que eu era uma porra louca, que só me salvaria na Igreja. Eu já ia embora, ele deve ter achado que não daria tempo de “me salvar”, Rs... Foi preconceito! Pode até parecer que foi MEU o preconceito, mas na verdade foi o DELE! Havia muitas pessoas na fila e só para mim resolveu dar o tal papel. Ele foi preconceituoso pelo meu visual e acabou enfiando os pés pelas mãos.

Fiquei com muita raiva na hora, mas depois resolvi contar pra todo mundo, aos risos, o caso sobre o “chamado de Jesus” a minha pessoa. Para variar, depois, fiquei com pena do cara, pois fui estúpida com ele e ele na verdade foi vítima do próprio preconceito, der repente por espelhar ele mesmo. O ser humano só enxerga um erro (ou o que ele acha que é um erro) quando isso reflete seus próprios.

Até o próximo post, beijinhos!

A volta


Resolvi voltar e falar um pouco de mim... É... A Senhora Desbocada resolveu voltar e dessa vez para ficar mesmo. Foi uma pausa ótima, de muitas mudanças na minha vida pessoal, reflexões, desconstrução e construção de velhos em novos conceitos. Mas uma coisa eu não mudei, continuo irreverente, isso não mudo nunca!

Ando mais calma, é verdade... Mas isso faz parte da nova fase de real mudança. Real por que mudei para ficar assim, como um movimento natural, sem esforço, sem “forçasão” de barra... Estou ficando mais velha, acho que é uma mudança natural da idade, de quem passa pelo sufoco que a vida proporciona... (Alguns dirão que é o AMOR).

Você, meu caro ou cara (dois ou três) leitores, deve estar ai se perguntando: Que porra tenho haver com isso? Oras... Tudo! Volto por vocês, adoro imaginar qual reação que as pessoas têm ao ler as coisas que escrevo, será que estão rindo, chorando ou me mandando tomar no... Emfim... Então, estou aqui agora, anunciando minha volta, depois de, sei lá, quantos meses sem escrever. Você é importante para mim!
Minha vida continua aquela loucura de sempre, e as maiores maluquices continuam acontecendo. Tenho impressão que só acontece comigo, sabe? Já volto.

Beijão a todos!!!